26 julho 2010

Procissão (Mário Anacleto)

Carrego a minha cruz como outro diabrete qualquer
nesta procissão de passos prontos, incandescentes,
rezo ave-marias e salve rainhas à virgem e ao anjo
figuras que não vi, não conheço, transcendentes...

Foguetes não há. A imagem triunfante vai aos ombros
de quatro moços a mando das mordomas da festa
e por curtinha que seja a volta, a contornar o terreiro,
voltam aperreados de calor, gotas de suor na testa

Ouve-se o arrastar sacrificado dos pés nas lages
todos seguem a virgem mãe que os precedeu na dor
e aquela cadência de pés é um compasso de banda
ou a brancura das flores com que se enfeita o andor.

Há romeiras que vêm de longe à procissão da aldeia
trazem filhos e maridos, nem sempre boas criaturas,
a cumprirem promessas que lhes darão a vida inteira
aquele sossego dos justos de que falam as escrituras

A cada passo uma dor de cravo penetra mais fundo
dramticamente como suplícios que Ele sofreu na cruz
"--Se eu eu der à luz sem dores ..." reza de esperanças
"hei-de beijar-te sempre ao deitar, meu amado Jesus"

Guindada bem a cruz no alto, canta-lhe o sacerdote
e só com a resposta de todos a oração fica pronta.
Mesmo que não conheçam bem as teologias a fundo
só o que vai dentro da alma de cada um é que conta!...


http://www.facebook.com/notes/mario-anacleto/procissao/412702748842

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