Adaptação de J.G. Quadrado
Na origem deste despretensioso trabalho esteve um projecto que consistia em recordar contos que aprendi e contei quando vivi nas Mós. Mas tratando-se de narrativas com feição moralizante e/ou demasiado ingénuas, pareceram-me pouco apropriadas para a generalidade dos meus pacientes leitores. Preferi, portanto, aproveitar alguns chistes ou ditos graciosos que memorizei e com eles “tecer” as facécias a seguir apresentadas, com alguma esperança de vos entreter e fazer rir.
1 – Ó BREVES DIAS DE MAIO!
- “Quando o Maio chegar, quem não arou tem de arar” – senão – “há-de chorar”.
Prevenido pela velha sabedoria popular, o Alfredo saiu de casa, ainda o Sol mal rompera, com a intenção de lavrar uma terra que tinha na outra banda do nosso ribeiro. Seguia com o arado radial ao ombro, para atravessar a cascalheira e a pouca água que corria, quando encontrou a Rosinda, sua namorada, que trazia na cabeça um grande cesto de roupa para lavar.
Viram-se, aproximaram-se e juntinhos ficaram, enternecidos, a namorar…
Só quando já anoitecia se aperceberam que tinham passado ali juntos o dia inteiro. E ela, insatisfeita e triste, a caminho de casa e com a roupa por lavar, suspirando, desabafou queixosa:
- Ó breves dias de Maio,
Dias da minha amargura:
Tão depressa amanhecem
Como ficam noite escura!
2 – OLHA PARA MIM, MEU AMOR!
Quase todas as noites a Celeste interpelava o namorado:
- Então, ó Zé, quando casamos?
E ele, invariavelmente, respondia:
- Tu não vês, rapariga, que são raras as jeiras, e assim não teremos o suficiente para o nosso sustento. Eu não quero que te digam, como disseram à outra: “Casa-te e verás: perdes sustento e mal dormirás”.
Após alguns meses a ouvir a mesma prevenção, ela passou a responder-lhe assim:
- Lá vens tu com a lengalenga do casa-te e verás. Depois de nos casarmos, podendo eu estar sempre a olhar para ti, nunca sentirei fome, podes crer!
Tanto insistiu com esta e outras ternuras, que acabou por convencer o Zé, e casaram.
Com a entrada do Inverno terminaram as jeiras. Depois, gastaram o pouco que tinham e acabaram por perder o crédito no “soto”. E quando já não tinham que comer, a Celeste

repetidamente queixava-se:
- Ó Zé, meu querido, tenho tanta fome…
E ele sossegava-a, dizendo-lhe:
- Olha para mim, meu amor!
Ela, resignada, calava-se.
Mas quando a fome era já de três dias, substituiu o queixume manso por um protesto colérico:
- Eu não aguento mais esta fome, catano! Maldita a hora…
Ele, interrompendo-a, repetiu docemente:
- Olha para mim, meu amor!
- Pois sim, mas estou tão farta de olhar para ti, que já me pareces o Diabo do Inferno!!!
3 - NÃO FOI ELA QUE VENDEU OS BOIS!
Em toda a aldeia e talvez em no concelho não havia junta de bois comparável à do Abílio.
Andava ele a lavrar num chão que tinha perto dos 40 Pães, quando passou no caminho que o sobranceia um grande proprietário residente em Freixo de Numão. Parou o cavalo e pôs-se a apreciar os belos e esforçados bois. E quando abriam o último sulco, muito próximo da borda do caminho, o cavaleiro perguntou:
- Ouça lá, quer vender-me essa junta de bois?
- Depende, se está na disposto a pagar-me 60 notas por ela, vendo-lha já.
- Negócio fechado. Leve os bois a casa do meu caseiro que eu vou a Freixo buscar o dinheiro.
O Abílio chegou a casa, corado e a cheirar a vinho fino. A Matilde, assustada, gritou:
- Onde deixaste os bois, Abílio?
- Vendi-os a um fidalgo de Freixo, por 60 notas.
- Trabalhos te persigam a ti mais às 60 notas! Agora, onde irás tu desencantar uma junta de bois como aquela?
- Não te aflijas que eu a encontrarei numa feira
Apesar da resposta apaziguadora do Abílio, os “ralhos” da Matilde foram tantos, que nem jantou!
E tão arreliada se manteve, que acabou por ir para a cama mais cedo. E o homem não tardou a deitar-se também.
Mortinho pela reconciliação, sorrateiramente, tanto se aproximou da companheira que a porra do Abílio cresceu e o manhoso “repreendeu-a”:
- Está quieta, não vês que a patroa está arrenegada connosco?
A Matilde virou-se para o homem e disse, terminante:
- Deixa-a vir! Não foi ela que vendeu os bois!
4- NÃO HÁ MÉ, NEM MEIO MÉ!
Durante a manhã chuvosa, o pastor João ficara retido em casa para não agravar o reumatismo que o apoquentava. Quando o céu desanuviou e ele se preparava para ir ao encontro da mulher que o substituíra, bateu-lhe à porta um rapaz a pedir emprego. Mirando-o de alto a baixo, perguntou-lhe:
- Donde vens tu?
- De Coleja.
- Já foste pastor?
- Sim, andei muito tempo na companhia do meu irmão mais velho a guardar gado.
- Duvido que sejas capaz de ordenhar sessenta ovelhas…
- Não duvide, pode crer que sou capaz!
- Bem, então anda daí.
Depois da conversa que tiveram enquanto caminharam, o João ficou com muitas dúvidas sobre as afirmadas competências, e logo pensou na maneira de as pôr à prova. Assim, quando chegaram junto do rebanho, com alguma ironia, disse para a mulher:
- Ó Ana, regressa a casa descansada que eu também não tardarei, porque temos aqui um “artista” capaz de tomar conta do gado.
Manquejando, foi acompanhando o moço para lhe indicar onde ficava o bardo, ao mesmo tempo que lhe ia ministrando as últimas instruções:
- Ao fim da tarde, vais ordenhando e metendo uma a uma no bardo. No fim, esperas que eu chegue, para levares o leite para casa e ceares. E só depois verei se valerá a pena contratar-te.
Fingiu que regressava a casa, mas ficou a observá-lo sem ser visto.
Ao entardecer, foi-se aproximando do bardo, para ver como se desunhava o moço na ordenha. Não tardou a ouvir uma rês a soltar incessantes balidos. Já muito próximo, escondido atrás duma parede, espreitou e ouviu o improvisado zagal resmungar:
- Não há mé, nem meio mé: tens que dar quartilho e meio como as outras!
O João ergueu-se de repente e gritou:
- Ah, ladrão! Que matas o carneiro!
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O riso é a distância mais curta entre duas pessoas.
(Victor Borge)
# publicado por blog dAsMós : 15:18

