30 junho 2010

Arroz Doce (das Mós)


“Lava-se o arroz e vai a cozer em água e sal e uma casca de laranja.
No fim de cozido, acrescenta-se o leite quente.
Deixe ferver e vá sempre mexendo, de preferência com uma colher de pau. 
Junte o açúcar e continue a mexer até ficar cremoso... “

... e serve-se (nas Mós) com muita amizade, acompanhado de uma grande força de vontade.

Se podia passar sem o Arroz Doce da Mós? Poder, podia!... Mas não era a mesma coisa…

23 junho 2010

Trovas da Fonte de Vale Trigo

Quero que o meu olhar te espante e te deleite
como a minha alma a rezar com a luz do teu azeite

Trago o orvalho da terra regando cardos e abrolhos
e as florinhas da serra no cantinho dos teus olhos

Ai monte, de seres tão alto, vivo de cruzes quebradas
de pedra em pedra que salto, lembro memórias passadas

Quem me dera ser teu amo, teus montes poder tratar
abrir caminhos que tramo, dormir de noite ao luar

Ao rebusco no quintal, à procura de mais grão
criei-te no amendoal, vida grande e grande chão

Falaste-me dos amores, dos regados e legumes
de caminhos e de flores, das auroras e perfumes

Ouço o silêncio do céu e o da terra bem mais forte
já não há anjos ao léu, já não há choro nem morte

No monte como romeiro, quero recordar contigo
as promessas no celeiro e a frescura de Vale Trigo

Se a azeitona de Inverno não desse a luz aos mortais
seria a vida um inferno: só pecados capitais

Quero dos teus um só beijo, debaixo da grande lua
estrelado céu do desejo, na calçadinha da rua

Calai-me ó Bárbara minha, Senhora do Bom Despacho
Que já bebi da biquinha, como de um bico o borracho

Quero ficar a teus pés deitadinho a ronronar
muitos dós e muitos rés como as mós sempre a rodar.

(Mário Anacleto)

21 junho 2010

S. Pedro 2010 (cartaz)


18 junho 2010

... conturbados anos da República


16 junho 2010

Passeio Turístico - ACR "As Mós"

Almeida
Salamanca
Congida



15 junho 2010

"Ecos do Monte" - (Mário Anacleto)

Ai minha mãe que me geraste no xisto
no mais doce e duro xisto desta vida
onde mora Santa Bárbara, velida,
de nome bárbaro como tinha minha avó,
onde a brisa e o silêncio me podam
como às crinas das giestas no monte onde nasceu o vento
mirando o rio a norte e ao relento,
serpente no paraíso,
lento como um fio de mel ou de licores de mosto
que se emprenham castamente com o calor de Agosto

Ai, minha mãe que me criaste nas ilhargas da montanha
onde só eu te parecia
de entre todas a flor menos bravia
Quem me dera ter-te ainda junto aos meus percalços
que só viveste na penumbra da felicidade
que não te floriram os olhos como as amendoeiras
que não provaste o azeite virgem das oliveiras
que não andaste ao rebusco nos amendoais
e só pudeste mesmo colher meu pranto
nas lancinantes dores do meu sentido canto

A dar forma à minha alma guardo as tuas mãos abertas
com as mesmas rugas que as tábuas com que é feito o monte
que se descobre ao perto, longe do horizonte,
e sempre a pique obrigando o olhar mais alto
antes que se curve de desânimo.
E sinto a tua pele dos beijos como seda pura,
entre tantas freimas, choros e desventura
e o timbre de ouro com que desafiavas
os rouxinóis, melros e pintassilgos destas Mós,
sempre que apertava a dor e a escondias com a tua voz.

http://www.youtube.com/watch?v=HvT03pxhe58

14 junho 2010

"Serão no Douro" - (Mário Anacleto)

Noite alta. Fecharam-se as portas aos vizinhos no lagar.
Os fenois e metanois convidavam a um sono prematuro;
na torre da Igreja já se ouvira badaladas de meia noite
dando a paz a quem dormisse, leve, no travesseiro duro.

Sentia-se aquele suave odor ao hálito sóbrio da lavoura
baixinhas, as estrelas animavam os insectos, ralos e grilos
no terreiro preguiçoso pendiam folhas de planta de jardim
e no aconchego do monte duas aves perdiam-se com trilos

Na soledade do templo velavam a Senhora e o seu Filho
das Dores trespassada ela e ele exausto, sempre em pé
repousando no sacro silêncio da mais fria transcendência
onde toda a alma comum busca abrigo com a força da fé

Tudo quanto era bicharada já dormia e o silêncio do largo
era interrompido pelo nosso bichanar de irónicas fantasias
e pela devassa presença dos felinos assapados ao relento
quem sabe, talvez, á espera de várias outras mordomias

Era nessas tardes que persistem para além do sol poente
que eu te folheava memórias desse volumoso livro aberto.
Era como tu, passando as páginas lentas da aridez da vida
Que nada havia mais forte que ler-te as rotas no deserto...

http://www.youtube.com/watch?v=_CjoCAemK6Y

"Gume da Montanha" - (Mário Anacleto)

Calou-se o cuco e o melro mas não se calou a montanha
que agora fere como um gume, desenho do arquitecto
esboço da transcendência e do para além de cada um
que se adivinha na envolvente afiada do traço do projecto

É quando a luz nos foge que mais agonizamos nesta mágoa
e vemos a serra erguida como um paquete na aventura
Tudo parece dormente, salvo seja, triturados nestas Mós
Mas há no sopé um berço que nos embala com ternura

Minha mãe que no silêncio velas do alto desse mostrengo
deitado de norte a sul nas ancas doces de teu colo aberto
contigo morro no barco de Caronte que levou o encoberto

Se se despede o sol mais cedo que a minha alma amargurada
sinto a tua luz espirituosa e limpa erguer-se do outro lado:
-- Creio nas raizes que me prendem neste chão escalpelado!

http://www.youtube.com/watch?v=w2cFEHM9yMw

08 junho 2010

Quem são os rapazes da bola?


De cima para baixo e da esquerda para a direita:
__ Vasconcelos, Adelino Filipe, Alcides __, Jaime Brilhante, Luís __, Pe Armando
José Ferreira, (Bentura), Celestino __, Joaquim __, José Eraldo


07 junho 2010

Testamento de Santa Bárbara ... (Mário Anacleto)

Rezo no cabeço calvo para onde corres
mantilha de pérolas ao fundo da ermida
a sangrar te abalas retalhando tua vida
Ai rio louco de sangue que aos pés me morres

Por aqui andou e alinhou alguém os montes
fez a uns saltar escamas do xisto no cume
e aos outros o vinho em lágrimas com ciúme
ambos cobrindo o céu larguíssimos horizontes

Escorro meu suor nas encostas de vinhedos
quedam-se os meus dias nos socalcos pelo pão
nestas serranias, mãos em concha, em oração
que o rio há-de levar as saudades e os medos

É aqui que nascem temporais e mora o vento
É daqui que emerge o sol e se mira na levada
e daqui defendo as Mós em dias de trovoada
para que seja o castigo mais breve que lento

Silvestre como as flores velo sempre paciente
vivo só neste azedume do monte e sem manhas
aconchego o povo ao colo acre das montanhas
e choro as mesmas lágrimas secas desta gente
Mário Anacleto

01 junho 2010

Casinhas de Xisto (Mário Anacleto)

Chego de longe da aldeia de onde parti criança,
arregalando os olhos grandes e tão afoitos por aí fora,
de onde ficaram donzelas esquecidas no tempo
e têm agora a cor das casinhas dos bisavós de outrora

Venho de onde o verde se dá com a passarada
e o campo santo tem o tamanhinho do terreiro da vida!
Guardando as almas e as pombas em revoada
intercede e reza Santa Bárbara, no alto da sua ermida!

Ai pedras de xisto que escorreis ao Douro
esta seiva com que se amassa a vida e se turba a voz!
Viveis suspensas com o rigor dos elementos,
finais prensadas como azeitona nos gemidos dessas mós!

Venho alagado em lágrimas de saudade,
de um céu que me cobriu, cravejado de estrelas sem igual
e onde os montes adormeceram gigantes.
Venho do sítio ermo onde há o céu mais lindo de Portugal!

Mário Anacleto

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