22 outubro 2008
Brasão, Bandeira e Selo das Mós - Edital no DR
20 outubro 2008
As Mós e os nós II
As Mós e os nós II
(A meus avós)
Ouve-se já ao longe
a desconcertante ladainha dos chocalhos
ecoando ancestrais refrões
pelo dorso do vale
Por detrás dos montes
ruminando ladeiras de íngremes contornos
cabras e ovelhas seguem o pastor
na sua demanda de aconchego
Da varanda
perscruto com o olhar
os últimos raios do poente
esmagarem-se contra as lajes de xisto
Nas hortas formigas humanas afadigam-se em derramar o precioso líquido por sementeiras
Nas hortas formigas humanas afadigam-se em derramar o precioso líquido por sementeiras
que hão-de germinar futuros
(Um perfume a terra
sedenta evola-se no ar e funde-se
com o cheiro da flor da laranjeira!)
Tímida
a noite cai sobre o minúsculo povoado
construindo novas metáforas e lendas
a uma aldeia enamorada
por adamastores vestidos de urze e de tojo
Na fonte
perfilam-se já - quais imberbes mancebos!-
os cântaros com a sua farda azul uniformizada
Içados à cabeça como mastros de um navio cada um tem o seu porto e o seu ritmo
Içados à cabeça como mastros de um navio cada um tem o seu porto e o seu ritmo
a sua amurada e a sua melodia
No terreiro
geografia de todos os reencontros e despedidas
chão fremente de risos e de lágrimas
alfobre de alegrias e tristezas os homens dão largas à conversa
alfobre de alegrias e tristezas os homens dão largas à conversa
Por todo o povoado se rumoreja
- nas toscas e desalinhadas pedras da calçada
nos alpendres das casas -
até o próprio luar enrubesce
quando escuta certos magistérios!
Rendilha-se o diálogo
com a ventura de quem
desfolha um álbum de fotografias
amarelecidas
pelo sol impiedoso
Nas Mós
aldeia de nós
laços afectos
e múltiplos dialectos
a argila que molda as rugas do tempo
é a mesma com que se edifica
a morada da candura
Ainda hoje sinto o afago dessas raízes
profundas e indecifráveis
com que o majestoso e omnipresente olmo
me prendeu à terra
É quando
o vento norte
me sussurra enledos na copa dos cabelos
que ouço a voz de meus avós
crepitar ao meu ouvido
- é nesse preciso instante
que tudo faz sentido
Vitor Solteiro, 26.06.07
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"Há palavras que nos beijam como se tivessem boca." (Alexandre O' Neill)
02 outubro 2008
A Festa está viva… e recomenda-se. Viva a Festa!
Com o pendão reerguido no alto da árvore maior que faz sombra ao terreiro e com o sentimento fraterno de amor à terra, o povo das Mós exultou de alegria no último fim-de-semana do Verão de 2008, na Festa em honra de Nª Sr.ª da Soledade.
Ainda que o inicio das aulas lectivas condicionasse a vinda de algumas famílias, mesmo assim, foram três dias de animação aqueles que se viveram nas Mós no fim-de-semana do 3º domingo de Setembro. Animação bem precisa, por sinal, nos tempos que correm, contraposta aos dias sombrios com que o desequilíbrio demográfico ofusca as terras do interior.
“Qualquer festa nas Mós se arrisca a ter sucesso” disseram-me outro dia, como se fosse fácil o êxito de qualquer evento. Se é verdade que no povo das Mós existe uma predisposição para fazer festa, não é menos verdade que existe bravura nas suas gentes quando toca a trabalhar, e a Comissão da Festa 2008 (criteriosamente escolhida por alguém que tão bem conhece e ama a terra) é o exemplo vivo de uma organização bem-feita e esforçada cujo resultado lógico só poderia ser o êxito.
O excelente cartaz de espectáculos aliciou a população que se juntou em bom número, principalmente na noite de sábado e no domingo. O Terreiro ganhou cor. As ruas conquistaram gente. Portas e janelas há muito fechadas abriram-se nesse fim-de-semana e deixaram entrar de novo o sonho e a alegria.
Aos grupos Anaconda, 2ª Geração e Bailarte, coube a tarefa de animar, respectivamente, as noites de sexta-feira, sábado e domingo. O Grupo de Cavaquinhos da Nestlé com cantigas ao gosto popular preencheu a tarde de sábado, e o Grupo de Concertinas e Cantares ao Desafio do Vale do Cávado, à boa maneira minhota, embora em horário complicado, actuou no domingo antes da procissão em honra de Nª Sr.ª da Soledade.
Com o apreço próprio que a Mãe merece, em procissão com outros venerados santos pelas ruas da freguesia, Nossa Senhora, foi levada aos ombros a passear pelos mosenses num gesto de agradecimento e de fé. A segunda parte da procissão ao Santo António tomou contornos exacerbados de divertimento, motivados, talvez, pela vontade daqueles que tendo necessidade de se ausentar mais cedo, e sabendo que não iriam estar na volta ao povo, encontraram assim forma de se despedirem em festa, da própria Festa.
Com a afinidade alcançada ao longo de anos, a Banda Musical 81 de Ferreirim voltou às Mós depois de dois anos de ausência, deliciou os presentes nas apresentações que fez e tomou lugar nas festividades religiosas de sábado e domingo. Na despedida, mesmo com os elementos mais novos, a banda ainda teve forças para a Tradicional Volta ao Povo, animadíssima, como sempre, onde a chuva este ano também se quis juntar.
A ordem e a boa disposição foram uma constante na festa, a venda das senhas para o Bar teve honras de gente nova na terra e o bufete apresentou deliciosamente umas bifanas em boa dose.
No seguimento do sucesso da do ano anterior, a quermesse deste ano contava com mais de 2800 prémios e, nos três dias de festa, deu loiça… loiça até fartar!
Necessária para alguns como se de um tónico se tratasse; sentida por outros como se fosse a última oportunidade de gozo; admirada por muitos como modelo a imitar; presenciada virginalmente pelos atraídos por ela porque dela ouviram falar bem; mas vivida por todos os mosenses com o sentimento fraterno de amor à terra, a Festa aí está, viva… e recomenda-se.
- Viva a Festa!


















