28 junho 2006
Postais das Mós (XXIII e XXIV)
(continuação)
“Aquele vosso trisavô era originário de Sebadelhe, mas veio para as Mós ainda novo e aqui casou com Maria Preciosa Melchior e deles nasceu uma só filha, Maria Henriqueta Melchior Lindo. Esta veio a casar com Manuel António Ferreira (Ginja), filho de Francisco António Ferreira e de Maria Joaquina Morais. Deste casamento nasceram 6 filhos: Amélia Gracinda Ferreira, Maria Joaquina Ferreira, Lúcio do Nascimento Ferreira, José Joaquim Ferreira (mais conhecido por Zé Ginja), Joaquim Ferreira e Olímpia Augusta Ferreira (Olas). E estes 6 filhos, os respectivos pais e avô Venâncio vivíamos todos debaixo do mesmo tecto, comíamos à mesma mesa à qual, muitas vezes, se juntavam ou o meu tio Joaquim Alípio Ferreira, ou a minha tia Balbina Cândida Ferreira que morreu solteira, depois de levar muitos anos da sua vida a ajudar a criar os sobrinhos.”
(continua)
(J.G.Quadrado)
24 junho 2006
Postais das Mós (XXI e XXII)
(continuação)
"- A maior parte do que vos tenho contado nos serões, aprendi-a com meu avô, Venâncio António Lindo, que morreu muito lúcido, e adorado por todos os netos, aos 99 anos; já teu pai (Josualdo José Quadrado) era nascido...
- Mas não conheço ninguém nas Mós com o apelido Lindo... - observou o mais velho.
- Pois não. Mas para não passares a noite a fazer mais perguntas, vou ensinar-vos os nomes dos meus pais e meus avós, que ainda eram vivos nos meus primeiros dez anos de casada."
(continua)
(J.G.Quadrado)
22 junho 2006
Postais das Mós (XIX e XX)
(continuação)
" Perante tudo o que vira desde que desertara, concluiu que a parvoíce não conhece sexo, nem fronteiras. Por isso, mais resoluto ainda, encaminhou-se, apressado, para o seu tonel, para junto da mulher que lá deixara.
- E depois? - perguntou o pequeno.
- "Depois, morreram as vacas e ficaram os bois."
- Então qual era o recado que tinha para me dar?
- Não entendeste, mas eu explico-te: fica a saber que chochices, tanto as fazem e dizem as raparigas como os rapazes...
- E a si, quem lhe ensinou tantas coisas, minha avó? "
(continua)
(J.G.Quadrado)
19 junho 2006
Postais das Mós (XVII e XVIII)
(continuação)
"Aturdido com a algazarra, fugiu a bom fugir de tanta brutidade. E foi então que resolveu regressar ao seu tonel, para junto da mulher que desposara.
Ia caminhando, convencido que todas as mulheres eram estúpidas, quando, a meio da tarde, ao passar junto de uma eira, deparou com os malhadores deitados à torreira do sol.
- Ó almas do diabo! A tarde a passar, o pão por malhar e vós aí, de barriga p'ró ar, à torreira do sol! Se não quereis trabalhar, ao menos, deitai-vos à sombra...
- Não podemos! - responderam, - Quando nos sentámos para merendar, ainda ainda aqui fazia sombra. Depois, deitámo-nos, ensarilhámos as parnas umas nas outras, e aqui estamos neste castigo, sem atinarmos com as pernas de cada um.
- Ó trabalhos vos persigam, nunca nem agora! Esperai que eu vos ensino!
Dito isto, agarrou um mangual e desatou a malhar neles. E era vê-los, então, a fugir, de braços no ar, a pedir misericórdia."
(continua)
(J.G.Quadrado)
17 junho 2006
Postais das Mós (XV e XVI)
(Continuação)
"Aproximou-se e viu, no meio do ajuntamento, uma delas com a mão e o antebraço direitos metidos numa talha de barro, debruçada sobre ela uma outra mulher, de serra em punho, preparando-se para lhe serrar o antebraço. Com destreza, agarrou da mão que segurava a serra, e perguntou:
- Então, o que se passa?
- Ó homem! Então não está à vista de toda a gente esta grande desgraça? A infeliz a mão na talha para tirar uma manadinha de azeitonas e, por mais força que faça, não há meio de a tirar dali p'ra fora. Por isso, não há outro remédio senão serrar-lhe o braço...
Assim que isto ouviu. o nosso homem deu um safanão no braço da mulher que, com o estremeção e a dor, acabou por abrir a mão, deixando cair as azeitonas. Foi fácil, depois, tirá-la de dentro da talha. As outras, quando viram aquele "milagre", desataram a gritar:
- É bento! O homem é bento!..."
(continua)
(J.G.Quadrado)
16 junho 2006
Postais das Mós (XIII e XIV)
(continuação)
"A mulher apressou-se a acender o candil e, daí a nada, veio à porta a desfazer-se em agradecimentos:
- Ó abendiçoado homem que me livrou de tanta mortificação!
Ele virou-lhe as costas, dizendo para os seus botões: - Esta ainda é mais lorpa do que a minha...
E continuou a caminhada, até que chegou a outro povoado e a primeira coisa que viu, foi um ajuntamento de mulheres, em altos berros, dando mostras de grande aflição."
(continua)
(J.G.Quadrado)
15 junho 2006
Postais das Mós (XI e XII)
(continuação)
" Ao entrar na primeira povoação, foi dar com uma mulher, junto à porta de casa, agarrando com grande afã uma cesta de asa, nos preparos de quem atira com alguma coisa para a rua. Ao vê-la assim tão afadigada, o nosso jovem perguntou-lhe o que estava a fazer, e ela, ofegante, respondeu:
- Nem imagina a minha consumição! Em chegando o fim da tarde, pranta-se-me uma escuridão cá dentro de casa, que não sou senhora de fazer coisíssima nenhuma! Passo tempos infinitos neste fadário, e não há meio de avantar com esta escuridão p'ró meio da rua!
- Olhe, sabe por que não vê bem agora dentro de casa? É porque chegou a altura de acender a candeia. Acenda-a e verá que já pode continuar com a lida da casa."
(continua)
(J.G.Quadrado)
14 junho 2006
Postais das Mós (IX e X)
(Continuação)
"Or'olha: aqui, está a nossa arca da roupa; ali, a nossa cama e ao pé dela há-de ficar o berço do nosso filho, quando o tivermos... E se cai o batoque do tonel e mata o nosso menino? Não é uma desgraça?
E as duas mulheres continuaram em altos berros:
- Ai que grande desgraça a nossa! Ai que desgraça!
O rapaz não quis ouvir mais nada. Benzeu-se, desandou e foi caminhando, em busca duma terra onde não houvesse gente tão tola."
(continua)
(J.G.Quadrado)
13 junho 2006
Postais das Mós (VII e VIII)
(continuação)
"Era uma vez um noivo que á mesa da boda deu por falta da esposada. E quando perguntou por ela, alguém lhe disse que tinha saído com a mãe, para irem ao tonel, destinado a servir de quarto ao novo casal. E como ela continuasse a demorar, o noivo, preocupado e contrariado com a desfeita, resolveu ir ao seu encontro.
Depois de caminhar uma centena de metros, passou a ouvir gritos de aflição, saídos do interior do tonel. Aflito, correu a bom correr, indo encontrar as duas mulheres desgrenhadas, banhadas em lágrimas e sofucadas pelos choros:
- Ai que desgraça tão grande! Ai que grande desgraça!
- Mas o que é que vos aconteceu? - perguntava, insistentemente. E a noiva, só passado algum tempo, a muito custo, conseguiu responder:"
(continua)
(J.G.Quadrado)
12 junho 2006
Postais das Mós (V e VI)
(continuação)
"Ó que lindos amores eu tenho!
Ó que lindos, ó que ingratos!
Andam por dentro das botas
E por fora dos sapatos."
- O que é? - pergunta o mais velho.
- São os meiotes! - responde de pronto o rapazinho.
- Não! Não!
- Então o que é?
- Pensa lá melhor: são os...
- Ora! Sei lá! "Diz" lá tu, se queres...
- São os tornozelos, tosquinho... - adianta a avó.
O benjamim da familia volta à carga:
- Mas o que eu queria mesmo era um conto. Então, minha avó?
-"Antão era pastor, guardava gado"... Mas para vermos se te calas e se tens paragem, lá vai um conto (a que podemos chamar facécia) que leva um recado para ti... Ora ouve:"
(continua)
(J.G.Quadrado)
11 junho 2006
Postais das Mós (IV)
(continuação)
"Os dois primos protestam. E a ordem só é restabelecida com o regresso da avó, que vem sentar-se, sobre as pernas em cruz, na sua esteira, para "trabalhar na meia". O rapazinho passa a cirandar em redor dela, pedinchando:
- Minha avó, conte-me um conto...
- "Por via dos contos, trago a barriga cheis de pontos"...
- Está arrenegada connosco? - pergunta, com alguma preocupação, o pequeno.
E o neto mais velho, de caçoada, "conta":
- "Era uma vez, um velho, uma velha e uma cabra que fizeram uma cama de gaimões. Deitou-se o velho, não caiu a cama; deitou-se a velha, não caiu a cama; deitou-se a cabra, caiu a cama. Quem teve a culpa?"
- Tá quieta ruça... Ajeita a canga! Desse mal que eu o diga... - e continua:
- Minha avózinha, conte-nos um conto...
Intervém o mais velho, que pergunta:
-Ó minha avó, como é aquela adivinha das botas e dos sapatos?
A avó tira um gancho do cabelo e espevita a torcida da candeia, e ao mesmo tempo vai respondendo:"
(continua)
(J.G.Quadrado)
09 junho 2006
Postais das Mós (III)
(continuação)
O neto (ainda criança) desafia o primo para outra lengalenga:
"-Vamos ao moinho?
- Vamos.
- Levamos uma cabacinha de vinho
- Levamos.
- Penduramo-la numa carrasqueirinha? - Penduramos.
- Atiramos-lhe com bogalhinhos?
- Atiramos.
- Aquele que soprar mais é galo!
- E o que soprar menos, é pita borrada!
Ffffffff.!!!...
Pita borrada! Pita borrada!"
Meio sofucado pelo mais poderoso sopro do primo, o pequeno dá-se por vencido e ouve a prima rosnar:
- Bem feito!
Com a avó ausente na cosinha, o pequeno replica:
- Cála-te lá! "onde cantam galos, não cantam galinhas". As raparigas só dizem chochices...
- Olha agora, o fedelho! Já a "formiga tem catarro..." - replica a prima.
O neto mais velho repreende a irmã "por se meter onde não era chamada". E ela, sacudindo as mãos molhadas sobre ambos, borrifa-os e depois canta:
- "Estes rapazes d'agora,
São poucos mas são valentes;
Trazem a pia dos porcos,
Atravessada nos dentes."
(continua)
(J.G.Quadrado)
06 junho 2006
Postais das Mós (II)
(continuação)
"...Acabada a ceia, a avó e a neta vão para o louceiro. E porque é tempo das geadas, o neto mais velho, sentado no banco grande, de costas para o canto da lenha, vai pondo mais um cavaco e uns guicinhos para manter acesa a chama na lareira. O neto mais novo anda numa dobadoira, sem ter paragem nem haver meio de se calar. Agarra as orelhas ao primo ( e este as dele) e ambos entoam a cantilena: "
"Lagarto pintado, quem te pintou?
Foi uma velha que aqui passou.
No tempo d'arada, fazia poeira,
Puxa lagarta por esta orelheira!..."
(continua)
(J.G.Quadrado)
02 junho 2006
Postais das Mós (I)
A Casa da Avó
«Naquela casinha com paredes de xisto, situada no "Fundo do Povo", paralela à capela de Santo António, existia uma acolhedora cozinha com uma grande lareira, onde nas noites frias se mantinha um borralho vivo, em torno do qual se sentavam a avó e (quase sempre) três netos órfãos de mãe. E à luz da candeia, pendurada nas "lares" tisnadas, a avó, ao mesmo tempo que "trabalhava na meia", desfiava um sem número de contos, de lendas, de mil histórias de proveito e de exemplo. ...»
(José Gomes Quadrado)
Inicia-se, com esta publicação, uma mostra de recantos mosenses intitulada “Postais das Mós”. Com ela, além de homenagear a arquitectura popular da freguesia, pretende-se fazer uma chamada de atenção, apelar à consciencialização de cada um, lembrando que o “velho” e o “novo” poderão coexistir, fundirem-se se necessário, mas que isso só será óptimo se acontecer no respeito pelo passado e pela história.
Neste primeiro postal, intencionalmente escolhida a casa da avó, saudamos com admiração o bom amigo Dr. José Quadrado, a quem fomos "roubar" o texto.
